Ininvestível!
Por que a estabilidade que só a democracia liberal pode proporcionar é o lastro real da economia
Esta semana, uma palavra tomou conta das notícias sobre política e economia: “ininvestível”.
Esse termo deixou as páginas teóricas de riscos geopolíticos para ancorar a análise da ExxonMobil sobre a Venezuela e, de forma mais provocadora, o diagnóstico do ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov sobre as ditaduras.
No entanto, o debate ganha uma urgência inédita quando olhamos para a guinada violenta dos Estados Unidos, que começam a implodir essas mesmas regras internacionais que garantiram sua prosperidade.
A economia depende da previsibilidade institucional. Quando um país abandona o império da lei (Rule of Law) em favor da vontade arbitrária de um líder, ele não está destruindo seu valor de mercado.
Venezuela: O custo do desmantelamento institucional
O anúncio recente de Darren Woods, CEO da ExxonMobil, classificando a Venezuela como “ininvestível”, é um caso didático sobre o que temos falado.
Woods enfatizou que, para o retorno de investimentos bilionários em longo prazo, são necessárias reformas profundas nos marcos comerciais e no sistema legal do país.
A história da Exxon na Venezuela é marcada por traumas: a empresa teve seus ativos confiscados em duas ocasiões distintas. Esse cenário ilustra um princípio fundamental da economia política em que ambientes onde o governo pode usar os aparatos do Estado para perseguições individuais ou políticas, o respeito à propriedade privada desaparece.
Sem a possibilidade de defesa frente a acusações estatais ou mudanças abruptas em contratos, o capital foge para portos mais seguro.
Kasparov e a tese da “Ininvestibilidade” ditatorial
Garry Kasparov elevou essa análise ao afirmar que “toda ditadura é ininvestível — ou deveria ser considerada assim”. Essa visão converge com a tese de que democracias liberais provocam um ambiente muito mais estável no longo prazo, promovendo transparência, acesso a justiça, simplificação de regras entre outros.
Diferente das autocracias, que podem apresentar “milagres econômicos” artificiais baseados em manipulação de dados ou picos pontuais, as democracias possuem mecanismos de autocorreção.
Já acompanhamos e publicamos aqui diversos estudos que indicam que, enquanto autocracias lideram rankings de crises econômicas graves devido à volatilidade de seus processos de decisão, as democracias criam redes de segurança institucionais que protegem o investidor no longo prazo.
O desenvolvimento sustentável não nasce da força bruta, mas de um amplo consenso sobre a manutenção de uma economia aberta e favorável ao mercado.
Ameaça ao centro do poder
O fenômeno da autocratização não é exclusivo de países em desenvolvimento. Vivemos hoje o que analistas chamam de “Internacional Iliberal” ou a “Terceira onda de autocratização”: uma coordenação global entre governos autocráticos, partidos antisistema e atores privados que buscam enfraquecer os pesos e contrapesos democráticos.
A atual postura do governo Trump nos Estados Unidos — declarando que não precisa seguir regras internacionais e abandonando acordos climáticos e de segurança — é o sintoma mais agudo dessa tendência. Ao personalizar o poder e deslegitimar oponentes, esses líderes corroem a prestação de contas (accountability) e os direitos políticos.
Quando uma potência global abandona o sistema internacional de normas, ela sinaliza que:
Contratos e acordos não são mais vinculantes, mas sim dependentes do humor do Executivo ou como Trump mesmo disse “da sua própria moral”
A transparência e o pluralismo, bases da inovação e do desenvolvimento tecnológico, são subordinados a objetivos partidários e ideológicos.
A estabilidade de longo prazo é trocada por ganhos imediatistas e retórica de dominação.
O caminho para se tornar “Ininvestível”
Se a escalada autoritária e agressiva que observamos nos Estados Unidos persistir, o país corre o risco real de seguir o caminho da “ininvestibilidade”.
Nenhuma economia, por maior que seja, é imune às consequências do desmantelamento das instituições.
A democracia é, talvez, a maior inovação já inventada para garantir a prosperidade humana, justamente por libertar as forças criativas e encorajar as pessoas a se associarem com confiança.
Sem o lastro das leis e a segurança das normas internacionais, o que resta é um mercado de alto risco, onde o lucro é incerto e a propriedade é condicional.
O diagnóstico da Exxon sobre a Venezuela é um alerta para o futuro de qualquer nação que decida que as regras não mais se aplicam a ela.





